09.05

2008
2:59 pm

Por quê eu odeio dinâmicas de grupo

Postado em Crônicas

Há pouco mais de um ano, me aconteceu uma coisa curiosa. Fui pré-selecionada para uma vaga de comunicação interna em uma multinacional de peças automotivas, a TRW que não vou citar o nome porque isso é totalmente antiético.

Lá, fui submetida a estranhos testes com eletrodos e máquinas esquisitas ao experimento bizarro que define uma dinâmica de grupo. Você já confronta os outros participantes na sala de espera; normalmente, conhece um outro de vista da faculdade ou algo assim. Se as pessoas forem simpáticas, vão puxar papo, a coisa descontrai. Mas mesmo assim, a impressão de ’sou eu contra você hoje!’ nunca desaparece do ambiente. E esse clima de competitividade já começa a irritar lá mesmo, na sala de espera.

Daí, beleza. Vai todo mundo pra sala da dinâmica, senta nas cadeiras dispostas em um círculo e normalmente a pessoa do RH diz pra gente se apresentar.

Nas dinâmicas para vaga de estágio, a maioria das pessoas não têm muita experiência. Só que, é claro, sempre vai existir aquela pessoa especial. Sim, a pessoa especial fala 8 idiomas. Ela conhece o mundo inteiro. Ela já fez trabalho voluntário na África e na índia. O mais preocupante: a pessoa especial adora falar sobre o quanto ela é especial. Com desenvoltura.

Minha mãe sempre diz que as dinâmicas normalmente eliminam essas pessoas especiais. Geralmente, elas vêm embutidas também com um espírito de ’se quero algo feito, faço eu mesmo’ - o quê, vocês devem imaginar, não é exatamente o ideal para uma dinâmica em grupo.

No dia da dinâmica para essa vaga em questão, depois da apresentação (que contou com uma ou duas pessoas especiais), haveria uma dinâmica. Ah, minha parte preferida.

Separaram a gente em duplas e a minha parceira de trabalho, muito simpática, comentou que já tinha me visto na faculdade. Descobri que éramos do mesmo ano; ela da manhã, eu da noite.

A dinâmica consistia no seguinte: nos deram dois canudos, um elástico, uma folha de papel e um clipe. E nos mandaram construir a torre mais alta possível com aquilo.

Óbvio: o objetivo era construir uma torre não tão alta, mas que ficasse em pé, pelo menos. A metáfora é que iIsso sem dúvida demonstraria que éramos ‘pé-no-chão’ e também que éramos pessoas preocupadas em construir uma estrutura sólida para depois fazê-la crescer. Claro, evidente que é possível classificar uma pessoa com todas essas características baseado em uma torre de canudos construída por ela. Ufa, ainda bem que temos esse tipo de artimanha para desvendar personalidades de maneira tão rápida e eficiente.

A dinâmica terminou e, entre explicações que variavam do ’sim, porque nós constatamos que era mais importante estabelecer uma estrutura sólida, mesmo que não fosse possível deixá-la tão alta, já que é evidente que, nesse caso, é importante…’ ao ‘nossa torre caiu’, eu e minha parceira explicamos os propósitos da nossa e aconteceu uma coisa inesperada.

Aqui, um adendo: eu tenho uma mania péssima de… rasgar papel. Eu rasgo papel em todo lugar; nos restaurantes, milhares de guardanapos. Eu não consigo ficar quieta e é quase inconsciente: quando vejo, os papéis já estão rasgados.

Ae comecei a destruir minha torre. Torci os canudos, rasguei o papel da base; o clipe, eu quebrei.

E não é que o viado do entrevistador, do nada, gritou: “AGORA VOCÊS TÊM DOIS MINUTOS PARA MELHORAR O PROJETO DA TORRE DE VOCÊS ! VAI!”

Eu nunca esqueci o olhar de decepção da minha parceira, desolado, fatalista, de perda reconhecida. Naquele momento, eu e ela soubemos que a vaga não seria nossa. Eu fiquei com vergonha e pedi desculpas, mas senti que nada poderia fazer para redimir minha falha.

Ontem, na sala nova, a garota me reconheceu. Pedi desculpas novamente; ela pareceu aceitar. Não há nada que o tempo não cure.

Esse vídeo mostra com detalhes a estupidez da coisa o que as pessoas avaliam numa dinâmica. E a gente finge que tá acreditando que os propósitos são tão nobres. E a trilha é Killers, rapaiz. Achou que era tudo ruim nesse negócio de dinâmica?

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13 comentários (Comente! Trackback)

  1. léo
    13/05/08 | 10:07 pm | #

    Belo post*

    Responder

  1. Lannes
    14/05/08 | 10:46 am | #

    Agora sim!

    Juro que ri demais imaginando a cara de decepção da tua dupla.

    Que brexa….rs

    Um cara me respondeu assim no email que mandei esse texto:
    “Me diga com quem andas e direi quem tu és…”
    [pq no txt eu citei que era de uma colega...até explicar que é colega do amigo, sabe como é...]

    Responder

  1. mariane
    20/05/08 | 12:29 am | #

    Eu tb ODEIO dinâmica de grupo.
    participei só de uma até hj, e foi horrível, maldita forma de seleção : P

    Nossa, esse mico de ter rasgado os negocinhos foi mto engraçado : P

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  1. Aulas de Comunicação Organizacional são estúpidas | Olhômetro
    07/08/08 | 4:37 am | #

    [...] que é importante saber um pouco de tudo. Esse conhecimento já me foi cobrado em algumas entrevistas de emprego e, profissionalmente mesmo, eu nunca sei quando vou precisar saber coisas dessa área. Mas é que, [...]

  1. Getulio Fonseca
    18/10/08 | 2:42 am | #

    Olha! Eu, como psicólogo, condeno totalmente esta forma arcaica e cruel de seleção. Creio que a forma mais justa de avaliação seria uma conversa bem franca porque quem entende de expressão corporal e vocal , saca tudo naquela mesma hora.A polícia dos EUA usa esta técnica há anos.É isso aí…a gente se sente como artistas de circo tentando não ser jogados na jaula dos leões!

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  1. Rafael Rubia
    15/04/09 | 8:00 pm | #

    Ótima história! Participei de uma entrevista/circo hoje. Nunca entendi o que significa ir com roupa social. Dinheiro? Carisma? Pretenção? Senso de padronização?

    Na “pré-entrevista” a entrevistadora perguntou: “Do que seus pais trabalham?”. Eu pensei: “Quê? Como assim??? Isso faz diferença? E se um for desempregado? E se um for diretor de uma multinacional? E SE EU NÃO TIVER PAIS!”.

    O que me chateia não são os métodos, e sim a sensação de que eles só existem para criar, aos olhos da empresa, a imagem de que eles estão contratando a melhor pessoa do mundo, e isso não é verdade. Uma simples conversa, até sem a necessidade de perguntas pessoais, já revelaria a capacidade do funcionário exercer determinada função.

    Responder

  1. Daniela
    22/07/09 | 3:40 pm | #

    é mesmo, Rafael Rubia, quando me perguntam o que o meu marido faz, em que trabalha, da vontade de dizer assim: eu que to procurando emprego, vtnc. o que ele faz ou deixa de fazer não é da sua conta. mas apenas dou um sorriso e digo qq coisa.

    Responder

  1. Daniela
    22/07/09 | 3:41 pm | #

    ah e diga-se de passagem, nunca me contratam… rs

    Responder

  1. Afonso
    22/07/09 | 4:50 pm | #

    Participei de uma para estagiário de uma empresa de construção, muito hilária, eu conduzia as pessoas a responderem e conceordarem comigo, o cara do rh quase me expulsou da sala, e no final quando ele falu que a vaga era para compras, levantei pedi licença e falei que se soubesse não tinha nem respondido ao telefonema, e da próxima vez que me avissassem para que eu não perdesse meu tempo.

    Responder

  1. Bernardo Zirpoli
    07/09/09 | 2:14 am | #

    Acho que o melhor que eu conseguiria fazer é enrolar um papel num cilindro (do lado horizontal), prender com o clipe. Aí eu pegaria um canudo e colocaria dentro do outro, mas só uma ponta pra ficar grande (tu manja como é). Eu pegaria esse “canudão “(ôe!) e prenderia no clipe. Acho que não tem como ficar mais alto que isso. Além do quê, o cilindro de papel daria pra segurar a estrutura facilmente.

    Mas isso é só em teoria. Na prática, eu ia mandar todo mundo se fuder, porque odeio dinâmicas de grupo.

    Responder

  1. Marcos Martins
    15/09/09 | 3:46 pm | #

    Eu tenho NOJO de dinâmica de grupo.Foi a pior coisa que já criaram nesse mundo.

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  1. thiago
    09/10/09 | 9:11 pm | #

    vou participar de uma dinamica de grupo dia 16, se as psicoputas opss quis dizer psicologas me fizerem pagar mico, vou mandar tudinho se fuder… hehehe e ainda vou falar pra elas que eu pensei que iria trabalhar em uma empresa e nao em um circo..hausahsuii

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  1. Letícia
    02/12/09 | 6:59 pm | #

    OBVIAMENTE, se a pessoa que aplicou a dinâmica souber o que está fazendo, não te reprovaria devido ao fato de você ter destruído a torre por uma simples mania,(em dinâmica de grupo se observa as intenções, mais que os resultados) mas sim, por outras questões relevantes (às vezes, gostamos de pensar que fomos reprovados por um motivo x, que nada tem a ver com os motivos reais, por exemplo, o fato da pessoa especial ser REALMENTE mais apta do que nós para o cargo)…Enfim, dinâmica de grupo aplicada por um profissional SÉRIO não é brincadeira, serve principalmente para observar como a pessoa INTERAGE com o outro, como lida com situações novas e com os desafios.

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