Eu pratico caridade… mas só se não precisar comprar tintas


Hoje eu vou falar da solução para a poluição visual urbana que mais gera controvérsia dentro da minha cabeça, já que é a medida mais inútil que alguém pode ter tido a infelicidade de considerar. As pessoas têm disso né? ‘Soluções criativas para os problemas’. É muito fácil ser criativo. As pessoas só esquecem de pensar na viabilização e na real efetividade das idéias.

Nos últimos tempos, um dos exemplos urbanos mais curiosos desse tipo de comportamento se manifesta naquelas plaquinhas em fachadas de empresas e estabelecimentos comerciais, que dizem: ‘Srs. pichadores: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a uma instituição de caridade. Os recibos estão disponíveis na recepção.’

Tipo essa, mas parece que não funcionou… e eles nem compraram as tintas, porque isso tá aí há meses

Sou só eu ou essa é a pseudo-solução mais estúpida e cínica que alguém tentou viabilizar para acabar com a pichação nas fachadas?

Pra começar, se eu sou um pichador motherfucker, é de se assumir que em 90% dos casos eu tô bem loko pelas ruas da cidade, quero fazer meu corre suavemente e, numa boa, não dou a mínima pras doações que alguém faz ou vai deixar de fazer a uma terceira pessoa se eu não pichar um muro. Quem realmente acreditou que essas placas comoveriam um vândalo em potencial? Se as pessoas normais não lêem as placas de ‘assentos reservados’ no metrô, o que te faz pensar que os pichadores leriam essa?

Seria muito mais convincente, muito, se a placa dissesse algo como ‘Srs. pichador: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a você. Passe na recepção, assine o recibo e receba seu pagamento. Obrigada!’ Bem mais prático e eficiente.

Em segundo lugar, tenho motivos pra acreditar que esse mesmo pichador não vai de maneira nenhuma pedir os recibos. Essa é a parte mais estúpida da idéia. Tipo, imaginem a cena:

‘Oi, eu tava afim de pichar o muro de vocês ali fora, né? Mas vi aquela placa, e quer saber, vim aqui porque gostaria de ler os recibos. Porque eu quero confirmar, sabe? É só pra saber mesmo. Posso ver os recibos… por favor?’

Não, né? Imagino o cara que teve essa idéia da plaquinha (que foi imediatamente mimetizada por 98% dos lugares que sofriam com as pichações no país): ‘Pô, vou colocar uma plaquinha dizendo que a gente vai DOAR DINHEIRO se eles não picharem. Não pra eles, né. Pros pobres. E pra eles não pensarem que é mentira, eles podem PEDIR OS RECIBOS DA DOAÇÃO, cara. Isso sim é uma grande idéia. Como sou perspicaz!

Outra coisa: as placas não especificam quantidade de pichações. Eu posso fechar aquela parede com spray ou rabiscar um coraçãozinho de giz: DANE-SE, não vai ter doação naquele mês, mesmo que a quantidade necessária pra pintar o coração caiba dentro de um pote de guache.

Depois, tem a parte mais cruel da história. Ninguém percebe o quão sacana é dizer que você só vai doar dinheiro pra instituições de caridade se pichadores não picharem? Não é legal basear um ato de altruísmo na boa-vontade de um terceiro que nada tem a ver com isso. Especialmente um terceiro que tem altas chance de realmente fazer o que ele está ali pra fazer (gente, PICHADORES PICHAM. Lidem com isso)

Óbvio, as empresas deveriam doar com ou sem pichações. Assumir numa plaquinha, pra todo mundo, que só vai doar se não tiver que comprar tinta e pagar pintor naquele mês é tipo a coisa mais mesquinha que alguém podia fazer.

No fim, explico porque a plaquinha só gera mais problemas: pra começar, os pichadores não vão deixar de pichar se encontrarem a plaquinha e as empresas vão continuar sem doar dinheiro pras instituições de caridade (enunciando que eles têm um motivo pra isso, no que vai todo mundo concordar que eles até tentaram ser legais com a humanidade, ok, mas os pichadores malvados não deixaram!).

Ou imagine um lugar que acabe doando só por alguns meses-sem-pichação do ano, e nos outros não doe, para poder comprar as tintas. E as pobres criancinhas que, durante determinado mês, vão ficar sem comer seu macarrão com salsicha? CLARO que elas pensarão ‘oh, não temos o que comer, mas não é culpa dos nossos benfeitores. Eles realmente tentaram, mas os pichadores não permitiram que comêssemos este mês! Eles são os verdadeiros vilões!’

Muito mais prático pintar com aquelas tintas anti-pichação. Evitaria todos os problemas. E as criancinhas que se danem.

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Tags: , , , , , , September 8th, 2008 Posted in Arte, Brasil, Crônicas

5 Responses no artigo “Eu pratico caridade… mas só se não precisar comprar tintas”

  1. Saulo falou:

    Eu pensei quase a mesma coisa essa semana!

    [Responder]



  2. Hamilton falou:

    Pois é, pichação e combate a ela parece uma briga de crianças. De um lado o pessoal com spray na mão, do outro o pessoal com a sandalha. Aqui pelo menos tem o disk-pichação, que se for pego no flagra é preso ou ajuda outros com trabalhos comunitários. Acho.

    Outra, “os caras” levaram um tempão para fazer uma tinta que não deixa a pichação no muro, ela escorre, para não usar? Tá certo, deve ser mais cara que a normal, mas é só mergulhar os prédios e monumentos na tinta!

    Ah, já sei, vai ver o problema da coisa está aí: onde vamos arrumar tamanhas latas de tinta para a imersão?

    [Responder]



  3. Junnin falou:

    Tipo,alguns pixadores até respeitam essas placas,e,sinceramente,até entre eles se tem mais honra do que entre as pessoas “normais”.
    Várias vezes,vejo vários predios pixados,e os que tem plaquinha não(prédios por que passo todos os dias).

    Mas também acho isso uma mesquinharia.E acho também que,velho,tem umas pixações FODAS.
    Como aquelas de boeiro,não lembro onde vi,mas um grupo de pixadores pintava os boeiros de várias formas,e aquilo tornava a cidade mais bonita MESMO.Ficava legal,desestressante,e eles apagaram.Um grupo de grafiteiros(leia-se ex-pixadores que agora ganham pra pixar,e seus trabalhos nunca são estragados por pixadores) tinha feito um trabalho num muro de alguma avenida em São Paulo(contratado pelo GOVERNO),e,quando alguns trabalhadores públicos,contratados para limpar a cidade viram,acharam que tratava-se apenas de pixação e…apagaram,tudo!Tinham dos dois lados da avenida,agora só tem em um,o outro ficou completamente cinza.

    Acho que,antes de tentarmos acabar com os pixadores,temos que rever nossos conceitos,e investir em educação,alimentação e negócios.Com pixação ou não-

    Resposta: Junin, os caras dos bueiros atuam na Barra Funda e redondezas, em SP, e são foda mesmo. Esqueci o nomes deles, mas ok. Veja que não falei nem bem nem mal das pichações, só disse que as plaquinhas não cumprem seu aparente objetivo, que é inibi-las. Eu mesma não tenho opinião formada a respeito, até pq adoro arte urbana, desde grafitti até stickers, stencil e essas paradas.
    Não sabia desse lance de apagarem grafitti, muito absurdo isso, sendo a própria prefeitura que contratou os caras. Muita falta de comunicação.
    O lance de investir pra acabar com pichação não sei se adiantaria. Grafitti é um lance que não deveria acabar, deveria ser institucionalizado. E deveriam rolar oficinas públicas de grafitti, assim o muleque aprende a grafittar em vez de pichar, que é uma parada mais bonita, traz cor e vida pra cidade, quando a pichação muitas vezes (não todas) é só vandalismo por vandalismo.
    Abraço!

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  4. Ulisses Adirt falou:

    “E as criancinhas que se danem.”… Caí de dar risada qdo terminei o texto… rs

    [Responder]



  5. Henrique falou:

    A placa pode ser besta, mas acho que um resultado pequeno pode causar.. A questao é que a parede fica tao feia quanto pixada hehehe

    [Responder]



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