15.01

2009
4:45 am

Sem opção: como o sistema te obriga a fazer o mal

Postado em Crônicas, Entretenimento, Há mais entre o céu...

As próximas linhas, de certa forma, serão um desabafo. É que todas as coisas que tenho visto e pensado, nos últimos meses – e não foi coincidência, mas sincronicidade – me levam cada vez mais à certeza que viver nesse mundo é muito prejudicial pra você, se você for alguém preocupado com o bem estar alheio.

Pode parecer óbvio para as pessoas iluminadas – a gente aprende já na escola que o capitalismo é um sistema baseado na exploração de mão-de-obra – mas essa coisa só me atingiu, na totalidade, nas últimas semanas.

O negócio é que, se você vive nesse sistema, não basta ser alguém bom, que não faz o mal diretamente. Nada basta, porque viver em sociedade hoje é, direta e indiretamente, causar sofrimento a um monte de bichos e gente ao redor do mundo. E o que fazer a respeito disso?

Compre um carro e remonte, na sua cabeça, o caminho que todas aquelas toneladas de ferro e borracha percorreram para estar ali, e você vai perceber que houve países de terceiro mundo explorados, gente recebendo centavos pela extração de determinado commoditie e você, indiretamente, causando o mal (fora a poluição que vai gerar depois, mas nem entremos nesse mérito).

Compre um tênis e leia onde ele foi produzido. Dos R$300 que você pagou, a mão-obra-explorada tirou menos de R$2. E você só quer vestir um tênis legal e sair com os seus amigos.

Coma um belo bifinho, frito pela sua mãe com tanto amor, com arroz e fritas, e pergunte-se o quanto aquele boi sofreu pra carne estar ali. OK, e se não liga pros bichos, pense nos salários baixos e condições desumanas dos funcionários de matadouros.

E quando eu digo ‘pense’, cara, me desculpe. Não quero te deixar com a consciência pesada, porque apesar de ter culpa, você não tem. É só uma constatação de que estamos imersos em algo que nos obriga a provocar o mal, massivamente. E não há escolha. Porque você é um cara legal, que é educado com todo mundo, ajuda sua mãe em casa, dá um beijo na avó quando tá com vontade, tem vários amigos e só quer ter um tênis que achou bonito, comer a comida que acha gostosa, ter um carro legal. Não há nada de errado nisso na essência, e justamente por isso é assustador: a gente causa o mal sem sequer desejá-lo.

Comecei a pensar em alternativas, OK? Eu juro. Algo pro futuro, porque não é assim também – não vou virar hippie, e a história de Christopher McCandless é admirável, mas eu não tenho, nem de longe, essa iluminação espiritual, essa coragem e esse desprendimento. Só que eu não encontrei nenhuma saída viável. Pensei em ficar rica (muito rica) e comprar uma fazenda auto-sustentável, mas o mundo é tão babaca que a própria fazenda auto-sustentável demanda muito dinheiro, adquirido – veja só – fazendo mal para as pessoas indiretamente. O caminho até ficar rica é cruel, sem mencionar que não é algo que eu possa simplesmente fazer acontecer. Nada garante que eu vá ficar rica.

Olha, nem penso nas obviedades. Viver sem iPod, sem internet – isso seria o de menos, sério. Estive pensando que, com a cabeça ocupada em tirar leite da vaca, regar horta e essas coisas de gente sustentável, que precisa produzir seu próprio alimento, nem teria tempo para internet. Mas se fosse para abdicar completamente da civilização, isso significaria excluir remédios.

E eu não tô disposta a voltar ao século XIII e morrer com uma infecção idiota provocada, sei lá, por uma picada de pernilongo que coçou demais, só porque não havia antibiótico. Sem mencionar a facilidade proporcionada pela invenção do absorvente, e isso seria impossível de abdicar.

Eu não posso escolher viver totalmente fora disso. Não sendo radical, é possível viver uma vida menos dependente dos bens de consumo, sim. Mas acho que se você pode ter um papel higiênico, vai poder ter também lenços de papel. Daí vai comprar papel toalha, uma privada, vai precisar ter água encanada, luz… e aí, meu amigo, ferrou.

Fico pensando que poderia tentar viver numa comunidade indígena, abdicar dos meus hábitos de civilizada e começar uma nova vida. Mas esses índios de hoje estão muito integrados na sociedade, né? Acho que não seria, ainda, o ideal.

Como eu disse no começo, é um desabafo diante da minha impotência e do duplipensar. Porquê se de um lado eu estou extremamente insatisfeita com o que o estilo de vida que eu levo causa no mundo, de outro eu não vejo compensação prática em abandonar todo o conforto que ele me proporciona – exceto, é claro, o meu karma, que vai ficar muuuito mais leve (pra quem acredita nessas coisas).

-

O texto pode soar demagogo, e até ingênuo, mas juro que é sincero. Foi escrito numa tacada só há cerca de um mês, mas não tive coragem de publicar na ocasião. Achei legal soltar hoje, porque reli e achei que é provavelmente uma das coisas mais automáticas que eu já escrevi, quase uma psicografia (só que não de terceiros).

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12 comentários (Comente! Trackback)

  1. Bosco
    15/01/09 | 12:24 pm | #

    Ana:
    Desde SEMPRE nossas ações estão concatenadas a ações de outrem, ou seja, desde sempre existe um impacto em tudo o que fazemos.
    Uma das grandes benesses da modernidade é podermos, num click, saber o impacto de nossas ações em cada produto que usamos (E, num primeiro momento, isso é algo que nos deixa pra baixo pacas).
    A boa notícia, ANa, é que, passado esse impacto inicial, podemos gerir as informações a nosso favor (Por exemplo: Pesquisando qual empresa usa mão de obra escrava infantil.).
    Lá no Insensatotal, o Insensato escreve uma sessão chamada “Ligando os Pontos”, onde noticias aparentemente banais tem grande impacto ao sabermos todos os pontos ligados à referida noticia. Eis que estou fazendo isso no dia-a-dia: Ligando pontos cotidianamente.
    Grande abraço, minha amiga.

    Responder

  1. Rubens
    15/01/09 | 1:35 pm | #

    Só se for morar com o Tarzan pra não fazer parte dessa cadeia toda.

    E como você conseguiu se auto psicografar??? o_O

    Responder

    Ana Freitas Reply:

    hahahahaha
    na verdade, o que eu quis dizer com isso é que eu peguei uma parte de mim que normalmente não se manifesta aqui e deixei que ela falasse sem parar.
    logo, uma auto-piscografia. eu ia usar o termo ‘automatismo psíquico’, que e mais apropriado, mas pqp, ninguém ia lembrar o que é isso.

    Responder

  1. Saulo
    15/01/09 | 2:01 pm | #

    Ei Ana, eu discordo da sua linha de pensamento (ou talvez, como você disse, eu não seja iluminado o suficiente). Acredito que todos os trabalhadores explorados que sofrem as consequências dos nossos atos estejam no lugar que precisam estar. Em outras palavras, se eles sofrem pelas desigualdades sociais, é porque isso de alguma forma é necessário para o crescimento deles. Caso contrário, eles teriam nascido muito ricos.

    Se você for se preocupar com as repercussões de todos os seus atos para com todas as pessoas do mundo, você acabaria deixando de viver sua vida. Do meu ponto de vista, a vida é essencialmente um arcabouço de problemas, os quais você aprender a resolver, sabendo respeitar o próximo e viver em sociedade. Certamente existe uma hierarquia e desigualdade social, dado que a nossa sociedade é longe de ser perfeita.

    Acho que antes de conseguir ajudar o mundo, precisamos ser capazes de ajudar a nós mesmos. Antes de atingirmos um estado de perfeita harmonia em sociedade e de plena capacidade de viver uma vida sem prejudicar ninguém, ainda temos muito a crescer. E quando eu digo muito, é muito mesmo! Ou seja, não estamos em um estágio evolutivo em que somos capazes de mudar essa situação. E a maior prova disso é que o único jeito de viver sem prejudicar o mundo inteiro seria morrer.

    Bom ao menos eu penso assim…

    Responder

  1. Daniela
    15/01/09 | 4:00 pm | #

    Eu sempre penso assim também. Aí bate uma tristeza, porque exceto pelo sentimento de culpa em relação ao mal que causo à minha volta e em relação à toda essa desigualdade social, eu adoro essa vida que eu levo!

    Responder

  1. Robson
    15/01/09 | 5:54 pm | #

    Isso que você mostrou apenas o lado cruel da sociedade considerando o ponto de vista econômico. Se você se aprofundar mais e começar a pensar em outros aspectos sociais a coisa toda fica ainda pior. A nossa capacidade de fazer o mal, consciente ou inconsciente, é imensa e não existe um jeito mágico para evitar isso. É meio egoísta, mas agir com bom senso e pensar que você esta fazendo seu melhor, que pode melhorar, sempre dá pra melhorar, mas que você fez o seu melhor é o melhor jeito de fugir dessa \”nóia\”. Fazer o que, a humanidade em sua base já é algo completamente sem sentido. Não vivemos sem outras pessoas mas nunca falta desculpa para matar nossos semelhantes, até insistimos que eles são diferentes.

    Responder

  1. alina
    15/01/09 | 9:57 pm | #

    obviamente, você não é a única que pensa assim, “se culpa” sem ter culpa disso… e o pior de tudo: não é a única que se sente impotente.

    acho que a pior parte é: não desejar tudo isso, e gostar de tudo isso.

    a solução? assistiu “a vila”? shaushuahsuahsuahsa
    é bem isso meu. e eu acho, que os seres humanos viveriam bem menos insatisfeitos, porque se tem uma coisa que o homem é, é insatisfeito. eu digo que MENOS insatisfeitos porque eu REALMENTE não acredito em positivismo.

    caso não fosse esse sistema, teria alguma outra coisa. o homem sempre busca um falo para seguir. e isso não mudaria com o sistema.

    Responder

  1. Diniz
    16/01/09 | 9:26 am | #

    Solucao: Se mate.

    Responder

  1. Blog Mallmal
    19/01/09 | 6:49 pm | #

    Adoro seu blog e seus textos, mas quando você entra nessa linha mimimi de culpa existencial emo-style, fica um porre.
    Essa síndrome de “todo mundo é coitadinho” é muita falta de realidade.
    A vaca, por exemplo, é um bicho burro, que não sobrevive sozinho na natureza e sua farta disseminação pelo planeta se deve apenas à sua capacidade adaptativa de ter um gosto bom.
    Os “pobres países” de terceiro mundo que fornecem a “pobre mão de obra barata” são responsáveis pelas suas atitudes. Se o governo mexicano permite a existência de fábricas maquiladoras próximo às fronteiras, é responsável, bem como a população que elegeu tal governo.
    E por aí vai. Em suma, ninguém é coitadinho. Simplesmente há os “espertos” e a massa manobrável, o rebanho. Dentro de seus paradigmas peculiares, acredito que as ovelhinhas sejam até, no geral, mais felizes. Ignorance is bliss.

    Abraço.

    Responder

    Ana Freitas Reply:

    Cara, não é bem essa a questão… não acho que todo mundo é coitadinho, só acho que o sistema tira a nossa opção de ser alguém 100% legal, porque vc vai estar sempre fodendo alguém. Não é pra se sentir culpado por isso, até porque não há culpa.
    Entendo o que vc quer dizer e concordo contigo. Essa minha epifania é mais espiritual e muito pessoal, é algo em que acredito pessoalmente, e nem é culpa nem nada, é só uma constatação. :)

    Responder

    Blog Mallmal Reply:

    É impossível ser alguém 100% legal, até mesmo pela teoria dos jogos do brilhante Nash. Viver é um jogo de soma zero. Tudo que você “ganha” ou “consegue” é algo que alguém “perde” ou “deixa de conseguir”. Isso não é culpa da politíca, d”O sistema” (não fale mais isso per favore!!!) ou do que seja. Os recursos simplesmente são finitos e, em alguns casos, pra piorar, esgotáveis.

    Responder

  1. Reinato
    20/09/09 | 6:03 am | #

    Who are you? Vc é deste planeta mesmo.. ou é do meu…? Follow-me.

    Responder

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