24.04

2009
4:15 am

A mulher que nunca esquece (e não sou eu)

Postado em Crônicas

Por um momento, achei que seria bom ser como Jill Price, a mulher que nunca esquece.

A pobre diaba (putz, sempre quis falar isso) não esquece nenhum detalhes de todos os dias dela desde os 14 anos, sendo bem sucinta. Literalmente isso. Como se fosse uma habilidade do Sylar ou coisa assim.

A verdade é que eu nunca estive tão feliz com a minha capacidade de esquecer depois de descobrir essa mulher. Me dei conta do valor da memória fraca, valor que o esquecimento tem pra nossa sanidade psicológica. E não falo de esquecer situações, porque essas, quando são marcantes ficam na memória – é principalmente esquecer os sentimentos associados a essas situações. Esquecer a sensação ruim de errar e ficar só com a parte boa, que ensinou; esquecer a sensação ruim que os erros dos outros podem causar e conseguir perdoá-los.

Imagina como deve ser difícil pra essa Jill Price, digamos, perdoar alguém. A gente diz que o tempo é o remédio pra tudo, e não percebemos que essa ‘diluição’ da memória, causada pelo tempo, é que é o verdadeiro remédio. Pra tal da Jill, não há remédio. E tipo – brega ou não, é uma dádiva que tenhamos a habilidade de esquecer.

Acontece o seguinte: se eu fizesse uma comparação simples entre quem eu era há um ano, quando fiz 20, e quem eu sou agora, daria pra enumerar algumas diferenças expressivas. Há um ano, eu tinha mais ou menos 25 quilos além do que eu tenho hoje; não tinha um óculos de sol nem roupas tão legais, meu blog não meu dava tantas alegrias, eu não me dava tão bem com meus amigos e nem tinha um encontro marcado pra semana seguinte. Há um ano eu não poderia estar escrevendo esse post do trem num iPod Touch, ouvindo Oasis, porque eu não tinha iPod Touch nem gostava de Oasis.

Por outro lado, um ano atrás eu não sonharia que O Pior Dia Da Minha Vida aconteceria do jeito que aconteceu, e quase um ano depois. Ah – e há um ano, eu tinha uma memória. Das boas, dessas de se orgulhar. E eu sinto falta dela.

Achava que esse era um dos meus principais problemas, estar tão estressada e cheia de informação que a minha memória foi para o saco. Naquela época, a quantidade ínfima de stress que me atormentava não era suficiente pra me transformar na Dóri.

dori
Em quem?

E hoje, to pior do que a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez (se preferir, Minha namorada tem amnésia, no incrivelmente franco título da versão lusitana.

(Quando meu lembro disso), eu lamento. Preciso anotar tarefas, pedir pros amigos me lembrarem do que eu estava falando no meio das frases, anotar idéias, nomes, números, cores, funções, tarefas – tudo. Nada fica na cabeça, e isso me preocupa. Eu só tenho 20. Quando tiver 40? Alzheimer?

O problema é se dar conta, em tratamento de choque, que único presente de aniversário que eu realmente preciso esse ano é de uma memória ainda mais diluída, que me permita esquecer tudo o que ´necessário pra poder continuar vivendo bem.

eternalsunshine

Uhum.

Completo 21 no dia 26 – mais feliz, mais completa, melhor, mas com a certeza de que não ligo se minha memória tá um caco – talvez, seja melhor desse jeito. Talvez seja o primeiro passo pra conseguir esquecer de verdade de coisas que não podem ficar na cabeça, porque senão vão enlouquecer a gente.

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26 comentários (Comente! Trackback)

  1. Mary
    24/04/09 | 5:03 pm | #

    Sou adepta das agendas desde que me lembre, e minha alcunha aqui em casa como ‘lerdinha’ e ‘esquecida’ e tão antiga quanto.
    Mas acho que essa coisa de Alzheimer já é muuuita neura. Estamos exercitando nosso cérebro sempre, e o que causa a doença é justamente o contrário (:

    Poxa, mó legal teu blog. Vou continuar passeando aqui, revendo teu passado, talvez algumas coisas que vc nem lembre mais! haha

    E feliz aniversário!

    Responder

  1. Pensante Comum
    24/04/09 | 7:41 pm | #

    A decisão final do jovem Evan Treborn (“Efeito Borboleta”) foi jogar no lixo todas as suas memórias, para que não se sentisse tentado a “melhorar as coisas” com sua habilidade de voltar no tempo, pois não tinha poderes para isso…

    Penso, porém, que lhe bastaria compreender que não podia mudar o mundo, e que nem sempre o lembrar-se de coisas ruins significa remoer o passado. Só se evita um caminho espinhoso quando se sabe o quão doloroso ele pode ser, graças à experiência própria ou alheia. Por isso, penso que a habilidade da referida mulher pode ser tanto uma dádiva como uma maldição.

    Penso, ainda, que perdoar não significa o mesmo que esquecer, são coisas distintas. Ora, quem esquece o mal causado por outra pessoa o terá perdoado realmente? Perdoar é algo mais profundo, mais sublime, pois envolve a lembrança de que o mal causado por outrem já não mais possui significado algum!

    Responder

  1. thiago
    24/04/09 | 7:51 pm | #

    cara Ana,

    entre Dóris, Drews Barrymore e Brilhos Eternos de Mentes sem Lembranças, você se esqueceu do mais célebre personagem quando o assunto é memória: Funes, o Memorioso.

    Se ainda não leu esse conto do mestre Borges, não perca a oportunidade:
    http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/funes.htm

    Responder

  1. Gláucia
    24/04/09 | 8:06 pm | #

    Eu só me recordo de 2005 pra pq eu achava super interressante anotar algumas coisas da minha vida. (Que absurdo só tenho 19 anos pra esquecer de quando eu tinha 14.) E olha que eu não sou tão mal assim de memoria. Deve ser bem interessante saber que o tempo não vai apagar as coisas mais triste da sua vida.
    Ana parabéns pelos 21 anos, e graças a Deus o tempo te fez gostar de Oasis, pq eu nem quero imaginar o que vc curtia antes.

    Parabéns!

    Responder

  1. Ed_GO
    24/04/09 | 8:38 pm | #

    Tem um conto de Jorge Luis Borges chamado “Funes, o memorioso”. Ele não se esquece de nada, nadinha. Até a quantidade de ondas quando ele tocava na água do rio, ou as folhas das árvores, as pessoas etc…tudo.
    Mesmo sem conhecer essa mulher, ele nos chamou a atenção para essa faculdade. Será que seria bom ou ruim ter uma memória infalível?

    Responder

  1. regis
    24/04/09 | 9:38 pm | #

    Querida amiga: sofre desse tipo de problema desde q me entendo por gente e só deois dos 27 descobri q eu TDAH, q me ajuda a esquecer de tudo. Talvez esse seja o seu problema tb. Hj tomo remedio e estou bem melhor. Procure um medico q ele vai te ajudar. bjs

    Responder

  1. regis
    24/04/09 | 9:39 pm | #

    Querida amiga: sofro desse tipo de problema desde q me entendo por gente e só depois dos 27 descobri q eu tenho TDAH, q me “ajuda” a esquecer de tudo. Talvez esse seja o seu problema tb. Hj tomo remedio e estou bem melhor. Procure um medico q ele vai te ajudar. bjs

    Responder

  1. Danielle
    25/04/09 | 12:11 am | #

    Adorei a matéria!

    Faço 26 no dia 26.

    Feliz aniversário para nós!

    Responder

  1. Ed_GO
    25/04/09 | 12:18 am | #

    Esqueci de mencionar: O conto “Funes, o Memorioso” foi escrito em 1944. Encontrei-o em português no seguinte link: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/funes.htm
    Veja também este texto de Virgílio Fernandes Almeida, professor da UFMG, com um outro ponto de vista sobre o texto: http://www.tanto.com.br/virgilioafernandes.htm

    Responder

  1. michael ramone
    25/04/09 | 12:20 am | #

    huauhauuah
    sylar foi a melhor
    huauhahuhuahua

    Responder

  1. Sara
    25/04/09 | 4:19 am | #

    Gostei da matéria e, principalmente, pelo modo que você escreve. Transmite um sentimento quase palpável de mágoa :T
    Também quero esquecer alguns momentos que passei e que, se bobear, ainda passo. Mas fazer o que? Tudo o que vivemos, sendo bom ou ruim, só nos faz mais humanos e a cada dor superada, nos tornamos mais fortes.
    Nunca ninguém disse que seria fácil :T

    Feliz Aniversário! [2]

    Responder

  1. Nádia
    25/04/09 | 9:51 am | #

    Aos 23 anos, hoje tenho 29, fiz uma fogueira e queimei meus diários que colecionava desde os 14.
    O motivo de tudo isso…pra que lembrar de tudo tão nítidamente?…desde lá não escrevo mais…E com as chamas flamejantes ao alto uma fumacinha se formava e dessipava..alí extinguiam-se todas as minhas lembranças.
    O que ficou?
    A inconfundível voz do meu avô dizendo: Julgue os outros por si mesmo. E isso não dá pra esquecer.
    Parabéns pelo blog, muito inteligente.

    Responder

  1. Mais procurados da Semana! « Antimídia
    25/04/09 | 12:57 pm | #

    [...] Jill Price jura que não esquece nenhum detalhe de todos os dias de sua vida, desde os 14 anos e dá uma entrevista contando como funciona tal fenômeno. Leia na íntegra [...]

  1. Cristy
    25/04/09 | 3:34 pm | #

    Esse recado é para ser aceito..rs…

    Então seu aniversário é amanha?
    E porque será que eu estava fuçando a internet e calhei de cair aqui..no seu belo blog.. e me despertar com sua forma bonita, clara e pura de dizer as coisas….
    Nao sei pelo que passou… mas saiba que vc é melhor do que antes… vc consegue atingir o coração das pessoas… e dar-lhes esperança.. de dias melhores….

    Parabens!!! continue se dedicando as palavras… pois elas tem forte poder… pq mudam a atmosfera espiritual do ambiente….
    e falando em coisas boas, em esperança… as pessoas se sentirao atraidas ao seu blog…

    Responder

  1. Oscar's
    25/04/09 | 7:29 pm | #

    minha memoria consegue ser pior q a sua. as vezes eu até esqueço o que eu estou pensando, sério . saiu na Superinterresante uma materia sobre memoria, acho que vale uma boa lida.
    quanto ao post, gostei,só que me deu uma sensação de que faltou uma conclusão.talvez eu esteja noiado demais com redações escolares e seus padroes :/

    ps:( quando eu acabei de digitar,cliquei pra mandar, mas esqueci de digitar nome e email. quando apareceu a mensagem de erro, voltei e ja tinha esquecido o que eu tinha digitado. sério. estou com medo da minha cabeça defeituosa)

    ps2: demorei tanto pra escrever o ps q eu esqueci o nome e email de novo

    Responder

  1. Edu Shalshisha
    25/04/09 | 7:50 pm | #

    Postagem FANTÁSTICA!

    Responder

  1. A Arte de Vender
    25/04/09 | 11:25 pm | #

    Perdoar não é esquecer o que houve. Você pode perdoar um inimigo, mas não quer dizer que irá se tornar seu amigo, ou esquecer o mal que ele te fez.

    O que me impressionou nesta postagem foi vocês desejarem perder a memória dos acontecimentos ruins por puro MEDO. A nossa evolução só ocorre com nossos erros. Se errar e esquecer, significa que não se aprendeu nada. E se vocês consideram “perdoar” igual a “esquecer” algo, quer dizer que vocês dão mais espaço para que se repita tudo denovo e denovo(ou seja, BURRICE).

    Memória louvável da senhora.

    Responder

  1. Fábio
    25/04/09 | 11:45 pm | #

    Parabéns Ana! Que sua memória continue cada vez pior!

    Responder

  1. Carlos Marin
    26/04/09 | 1:25 am | #

    Sabia que é gasto muito mais energia pra apagar suas memórias do que armazená-las? Ou seja, do ponto de vista termodinâmico seria muito mais favorável que lembrássemos de tudo.

    Responder

    Carlos Marin Reply:

    [SPAM] Delete me!

    Responder

  1. Carlos Marin
    26/04/09 | 1:27 am | #

    Sabia que é gasto muito mais energia pra apagar suas memórias do que armazená-las? Ou seja, do ponto de vista termodinâmico seria muito mais favorável que lembrássemos de tudo.

    Feliz Aniversário! Parabéns! Muitos anos de vida — pra continuar postando XD.

    Beijo.

    Responder

  1. Mauro
    26/04/09 | 9:10 am | #

    Tem outra coisa, além disso tudo.
    O problema de ter uma memória MARAVILHOSA também pode ser que nós confundiríamos o presente com o passado, se lembramos de tudo tão bem quanto no dia que vivemos a situação em questão, não saberemos direito se a situação aconteceu a muito tempo ou está acontecendo agora, pelo menos é a impressão que eu tenho.

    Responder

  1. Dedé
    26/04/09 | 7:19 pm | #

    Feliz aniversário Ana! Que você mantenha a disposição para questionar, sonhar, gritar, lamentar, enfim, manifestar suas ideias e sonhos. Passo pelo seu blog com frequência adoro sua verborragia, sua alegria e viver e seu inconformismo. Diverte e muitas vezes nos faz pensar.
    Quanto às nossas memórias, acredito que retemos o que é necessário para não repetirmos o mesmo padrão. O tempo é o único remédio capaz de atenuar o sofrimento, algo inevitável na vida.
    Ana, você tem muito pra viver. E por suas ideias deve ser uma pessoa muito especial.
    Seja muito feliz e nos faça um pouco mais feliz todos os dias com seu texto delicioso.
    um beijo

    Responder

  1. Cler Oliveira
    27/04/09 | 1:16 pm | #

    Sinceramente, eu prefiro esquecer que, há um ano eu estava melhor que hoje. Prefiro esquecer que há um ano eu ainda tinha a capacidade de lembrar das pequenas cool que orbitavam a minha volta, sabe? Hoje, por não lembrar dessas coisas, me sinto uma impostora, uma enganadora. Kurt Cobain dando sua última entrevista à Rolling Stone dizendo que tudo não passa de uma grande piada.

    Responder

  1. carlos vinicius
    05/05/09 | 6:38 pm | #

    eu gosto de viver com sou, eu lembro de um pouco da minha infancia, minha irmã lembra um pouco de outra coisa e meus primos de outros fatos, agente se reune é ponhe os papos em dias, relembra do passado é muito bom, muito bom mesmo esqueçer das coisas, esqueçer dos maus momentos é melhor ainda.

    eu so queria que a sabedoria que tenho hoje fosse a mesma que a de 4 anos atraz, tudo seria diferente…

    Responder

  1. Sabrina Mix
    06/05/09 | 2:14 pm | #

    É menina, também sou uma Dori completa. E acho até engraçado.

    Beijos e sucesso!!!

    Responder

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