z Crônicas | Olhômetro

Eu pratico caridade… mas só se não precisar comprar tintas

Hoje eu vou falar da solução para a poluição visual urbana que mais gera controvérsia dentro da minha cabeça, já que é a medida mais inútil que alguém pode ter tido a infelicidade de considerar. As pessoas têm disso né? ‘Soluções criativas para os problemas’. É muito fácil ser criativo. As pessoas só esquecem de pensar na viabilização e na real efetividade das idéias.

Nos últimos tempos, um dos exemplos urbanos mais curisoso desse tipo de comportamento se manifesta naquelas plaquinhas em fachadas de empresas e estabelecimentos comerciais, que dizem: ‘Srs. pichadores: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a uma instituição de caridade. Os recibos estão disponíveis na recepção.’

Tipo essa, mas parece que não funcionou… e eles nem compraram as tintas, porque isso tá aí há meses

Sou só eu ou essa é a pseudo-solução mais estúpida e cínica que alguém tentou viabilizar para acabar com a pichação nas fachadas?

Pra começar, se eu sou um pichador motherfucker, é de se assumir que em 90% dos casos eu tô bem loko pelas ruas da cidade, quero fazer meu corre suavemente e, numa boa, não dou a mínima pras doações que alguém faz ou vai deixar de fazer a uma terceira pessoa se eu não pichar um muro. Quem realmente acreditou que essas placas comoveriam um vândalo em potencial? Se as pessoas normais não lêem as placas de ‘assentos reservados’ no metrô, o que te faz pensar que os pichadores leriam essa?

Seria muito mais convincente, muito, se a placa dissesse algo como ‘Srs. pichador: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a você. Passe na recepção, assine o recibo e receba seu pagamento. Obrigada!’ Bem mais prático e eficiente.

Em segundo lugar, tenho motivos pra acreditar que esse mesmo pichador não vai de maneira nenhuma pedir os recibos. Essa é a parte mais estúpida da idéia. Tipo, imaginem a cena:

‘Oi, eu tava afim de pichar o muro de vocês ali fora, né? Mas vi aquela placa, e quer saber, vim aqui porque gostaria de ler os recibos. Porque eu quero confirmar, sabe? É só pra saber mesmo. Posso ver os recibos… por favor?’

Não, né? Imagino o cara que teve essa idéia da plaquinha (que foi imediatamente mimetizada por 98% dos lugares que sofriam com as pichações no país): ‘Pô, vou colocar uma plaquinha dizendo que a gente vai DOAR DINHEIRO se eles não picharem. Não pra eles, né. Pros pobres. E pra eles não pensarem que é mentira, eles podem PEDIR OS RECIBOS DA DOAÇÃO, cara. Isso sim é uma grande idéia. Como sou perspicaz!

Outra coisa: as placas não especificam quantidade de pichações. Eu posso fechar aquela parede com spray ou rabiscar um coraçãozinho de giz: DANE-SE, não vai ter doação naquele mês, mesmo que a quantidade necessária pra pintar o coração caiba dentro de um pote de guache.

Depois, tem a parte mais cruel da história. Ninguém percebe o quão sacana é dizer que você só vai doar dinheiro pra instituições de caridade se pichadores não picharem? Não é legal basear um ato de altruísmo na boa-vontade de um terceiro que nada tem a ver com isso. Especialmente um terceiro que tem altas chance de realmente fazer o que ele está ali pra fazer (gente, PICHADORES PICHAM. Lidem com isso)

Óbvio, as empresas deveriam doar com ou sem pichações. Assumir numa plaquinha, pra todo mundo, que só vai doar se não tiver que comprar tinta e pagar pintor naquele mês é tipo a coisa mais mesquinha que alguém podia fazer.

No fim, explico porque a plaquinha só gera mais problemas: pra começar, os pichadores não vão deixar de pichar se encontrarem a plaquinha e as empresas vão continuar sem doar dinheiro pras instituições de caridade (enunciando que eles têm um motivo pra isso, no que vai todo mundo concordar que eles até tentaram ser legais com a humanidade, ok, mas os pichadores malvados não deixaram!).

Ou imagine um lugar que acabe doando só por alguns meses-sem-pichação do ano, e nos outros não doe, para poder comprar as tintas. E as pobres criancinhas que, durante determinado mês, vão ficar sem comer seu macarrão com salsicha? CLARO que elas pensarão ‘oh, não temos o que comer, mas não é culpa dos nossos benfeitores. Eles realmente tentaram, mas os pichadores não permitiram que comêssemos este mês! Eles são os verdadeiros vilões!’

Muito mais prático pintar com aquelas tintas anti-pichação. Evitaria todos os problemas. E as criancinhas que se danem.

September 8th, 2008 | 2 Comments

A vida não é como no The Sims

Eu nunca me senti à vontade para tirar foto com pessoas famosas encontradas aleatoriamente nos lugares. Primeiro, achei que tinha vergonha de ser inconveniente e invadir um momento pessoal do fulano para pedir uma foto. Depois, também me dei conta que eu não dava muito valor para uma foto com um cara famoso, simplesmente porque essa foto não tem valor nenhum e não quer dizer nada - exceto que por uma coincidência eu estava no mesmo lugar que essa pessoa. Em terceiro, se for o caso de registrar a presença da pessoa, prefiro tirar uma foto dela - e não com ela. Só tirei foto com pessoas ‘famosas’ uma vez, ocasião perdoável pela situação, que um dia eu conto.

A minha dúvida é a seguinte: tirar fotos com pessoas famosas realmente dá algum status quo social? Existem pessoas que perseguem celebridades das mais bizarras, das quais elas nem são fãs, por uma foto. No show do Muse, um fulano pediu parar tirar uma foto com o Rafael Losso.

Para quem não sabe, Rafael Losso é esse cara aqui:

Quem é Rafael Losso na noite? Ele já foi VJ na MTV, ok. Um monte de gente não gosta do jeito meio retardado dele, ok também. E ele é um cara legal. Mas que tipo de nível de popularidade o carinha do show do Muse vai elevar se mostrar aos amigos e família uma foto dele com o Rafael Losso? Digo, realmente existem pessoas que escolhem os amigos pelo número de fotos com famosos que eles têm no álbum do Orkut? Porque isso me parece improvável, e torna o conceito de foto com celebridade totalmente sem sentido. Vamos supôr que existam dois motivos para posar ao lado de um rosto conhecido:

1) Mostrar aos amigos, que ficarão encantados e gostarão muito mais de você, e colocar no Orkut, o que atrairá muitos amigos até você e você se tornará incrivelmente popular;

Já provamos que essa hipótese é furada, já que não consigo conceber a existência de alguém que dê valor social para uma foto de tietagem. A possibilidade do Orkut é algo a se considerar. Como muita gente considera importante a situação social no Orkut (o que explica inclusive exibição insistente de fotos no exterior, caso tiver, no mesmo álbum), e sua imagem no Orkut é constituída pelo quão descoladas são suas fotos…

2) Saber que você é muito, muito legal por ter encontrado alguém famoso por acaso;

Essa possibilidade é inválida por vários motivos. Mais óbvio, se você se acha legal porque encontrou alguém POR ACASO em um lugar e tirou uma foto com essa pessoa, claramente não adianta você se achar legal, pois vai continuar sendo um babaca. Em segundo, qual o mérito de encontrar com uma pessoa aleatoriamente em algum lugar? E depois, se fosse para levantar o próprio ego, não precisava tirar a foto, bastava lembrar do momento.

Discutível também é o conceito de famoso nesse caso. Aparentemente, não existe um padrão, até por causa das celebridades de nicho na internet. Mas no geral, basta aparecer na TV mais de três vezes e algumas pessoas já podem desejar tirar fotos com você. E as escolhas às vezes são terrivelmente inexplicáveis (como o exemplo do Rafael Losso).

Posso entender que demonstrar proximidade com alguma celebridade é algo que traz sim status quo social (entre pessoas estúpidas, mas a maioria delas é, então ok). Mas ninguém que tira essas fotos está FINGINDO ser amigo do cara. Pra começar, todo mundo sabe que foi uma coincidência você encontrar com o fulano. E são retratos claramente tietístiscos, normalmente tirados ao lado da pessoa famosa em questão, ambas com um largo sorriso no rosto, como se aquele encontro fosse tudo o que tivessem sonhado por todas suas vidas. E amigos de celebridades não tiram fotos com elas porque e exibem para os outros.

No fim, minha conclusão é a seguinte: a vida real não é como o The Sims. Retratos como esses não te dão +++ em todos seus relacionamentos. Exceto talvez no Orkut, fotos com o Latino ou com a Proibida do Funk (tem essa mulher, né) só fazem você se sentir legal, mas ninguém vai gostar mais de você por isso, e você também não vai atrair pessoas bonitas e legais porque tirou fotos ao lado de gente famosa. Eu sou fã de algumas pessoas, mas isso me dá vontade de ser amiga delas, sabe? Aquele cara que parece tão legal que você tem vontade de trocar uma idéia. Mas tirar fotos… tirar fotos não faz sentido.

Minha ressalva fica com as fotos ao lado de pessoas que você realmente admira - um cantor, ator etc de quem você é super fã. Acho que serve como lembrança de um momento no qual você se emocionou pois esteve perto daquela pessoa. Mas não entendo gente que tira foto com toda e qualquer coisa que se mova atrás de uma tela. É patético.

September 3rd, 2008 | 5 Comments

A vida na ponta do seus dedos

O computador já faz parte da nossa vida de maneira tão fundamental que já é muito difícil imaginar o mundo sem ele. O PC já se tornou uma extensão do nosso corpo. Mas é uma pena que alguns elementos da informática não possam ser incorporadas de maneira plena pelo ser humano.

Quem nunca teve o impulso de dar um Ctrl+C e Ctrl+V ao fazer uma anotação num bloquinho de papel? Ou abriu um livro em busca de um trecho específico e percebeu que daria tudo por um Ctrl+F, as teclas que buscam por algum termo específico?

Fato é que alguns desses comandos seriam incríveis se pudéssemos ter algo equivalente a eles na vida real. O Instituto de Pesquisas Olhômetro, após exaustivos estudos, apurou quais seriam os seis comandos mais legais se pudéssemos controlar nossa vida por um teclado.

6 - F5
Para quem não sabe, F5 é a tecla-atalho para atualizar uma página. Não imagina como isso pode ser útil na sua vida?

Você não aguenta mais seu celular do século passado, que só faz ligação e pesa meio-quilo? Fácil. F5. Quer dar uma repaginada no visual e trocar aquelas peças da estação passada? F5. Sua TV não é de plasma? F5. Serve até se você precisa, tipo, se atualizar em algo… quer dizer, isso na minha brincadeira, que vale o que eu disser que vale. Seus conhecimentos sobre pandas estão defasados, já que você não acompanhou o congresso mundial dos bichos fofos de 2008? F5!

5 - Ctrl+C e Ctrl+V
Lembra quando você estava no pré e a professora mala mandava ficar escrevendo 30 vezes a mesma frase, uma embaixo da outra? O quê? A sua não fazia isso? Talvez eu fosse um caso especial… Bom, ehr… então, lembra daquele trabalho de geografia da quarta série, que você teve de copiar da Enciclopédia Barsa que tinha em casa à mão? Se a gente pudesse usar o fantástico combo Ctrl+C e Ctrl+V, nada disso teria sido problema, e teríamos tido mais tempo para brincar (e nos tornado crianças mais saudáveis e felizes). E o Ctrl+C e Ctrl+V real life não serviria só para propósitos egoístas e pessoais. Quer resolver o problema do aquecimento global? Ctrl+C e Ctrl+V na Amazônia! Salvaríamos o mundo e só precisaríamos de 3 teclas.

4 - Page Down
Todo mundo conhece aquela pessoa que não vai direto ao ponto e fica dando voltas ao redor do assunto ao invés de falar logo. Se você, como eu, é do tipo que gosta que as pessoas sejam diretas, o Pagedown seria super útil na sua vida. Pule o blá blá blá: pressiona o Pagedown que ele te leva direto ao fim do assunto.

3 - Home
Não precisa nem dizer. Especialmente útil nos tempos de Lei Seca, quem não gostaria de um botão que te levasse para casa? Útil numa variedade impressionante de situações.

2 - Ctrl+F
Minha imaginação nerd voa só de pensar nas possibilidades de um Ctrl+F na vida real. Para começar, tem a possibilidade de procurar palavras específicas em textos impressos. Milhares de estagiários perderiam o emprego em empresas de clipping. Mas o que mais me epolga é a oportunidade de procurar referências automaticamente dentre as revistas e livros empilhados na estante.

Sem falar das possibilidades do Ctrl+F para procurar pessoas. Não mais veremos aquela cena clássica de shows, que incluem pessoas falando ao celular no meio da galera, esticando o pescoço e balançando o braço de maneira frenética, na esperança de achar o amigo que acabou de chegar… bastaria um Ctrl+F com o nome do fulano. Óbvio que, dessa perspectiva, um Google da vida real seria fantástico, mas estamos falando só de comandos do teclado, não é?


1 - Ctrl+Alt+Del

Como no PC, essa é uma combinação a ser usada em momentos críticos da vida. Sabe quando as coisas travam e você não consegue continuar, por excesso de problemas/preocupações/pendências? É quando embolou tudo e você precisa repensar algumas coisas - deixar algo para trás bruscamente para sua vida fluir mais livremente. Essas seriam suas teclas, meu caro. Com essas aí, quando a coisa apertar, basta dar um Ctrl+Alt+Del que ele acionaria a listagem de ‘aplicativos’, o quanto eles estaria deixando o seu ’sistema’ crítico e um simples cliques de botão acabaria com a lentidão do sistema. Fácil.

Creative Commons License photo credit: Christian Frausto BernalLavado

AH, PERDI O CONTROLE!

Pensando bem, talvez as teclas preferidas variem de pessoa para pessoa. E supondo que um teclado possa controlar sua vida, existem teclas perigosas, tipo Num Lock. Ele é cruel. Quem nunca se irritou com ele depois de digitar um código de barras de 36 caracteres e perceber que o teclado numérico estava desativado?

Ou alguém pode esbarrar um Delete e acabar excluindo algo importante. Mas o pior seria ter que andar usando W, A, S, D. Acho que eu não teria paciência para isso.

BÔNUS: Passei o dia com a sensação de ter esquecido de alguma tecla fundamental. O Carlos e o Eric falaram de algumas nos comentários, mas eu continuei a sensação de ter esquecido alguma que já tinha passado pela minha cabeça e era muito boa. Mas o Paulo Henrique fez o favor de me lembrar, também nos comentários. Por isso, senhores, lhes apresento agora as vantagens de contar com uma destas na sua vida:

Ctrl+Z
AH! O Ctrl+Z. É a combinação de teclas mais formidável de um teclado - olha, talvez sua importancia desbanque a do Ctrl+Alt+Del. O Ctrl+Z simplesmente desfaz suas últimas ações. E isso é exatamente tudo que a gente precisava. Afinal, todo mundo já se arrependeu de ter dito algo, ou feito algo, muitas vezes apenas alguns segundos depois. O Ctrl+Z seria o melhor amigo dos corações impulsivos. E arriscar seria muito mais segurio: tentou, não deu certo? Desfaz.

August 25th, 2008 | 9 Comments

Pessoas invisíveis: diga não a essa tendência!

Todo mundo tem aquelas aspirações impossíveis. Aposto que cada um de vocês já desejou poder voar. Ou ser do tamanho de uma mosca. Enxergar através das paredes também é greatest hit das coisas que a gente quer fazer mas não pode.

Mas não há nenhum ‘aspiração impossível’ tão desejada quanto a invisibilidade. Ser invisível é sublimação do ver sem ser visto. Nós vemos tudo o tempo todo, mas não vemos tanto e de tão perto quanto gostaríamos porque podemos ser vistos - e isso nos incomoda. O pudor, o medo de ser considerado enxerido é o que poda nossa bisbilhotice natural.  Dizem que ser voyeur é parte da natureza do ser humano. Não é à toa que o Big Brother faz tanto sucesso.

Mas tem outro jeito de ser invisível. E ele não envolve nenhum kit do E-bay.

Tem gente que é invisível por opção. Adota a invisibilidade como estilo de vida. Você deve conhecer várias pessoas invisíveis - elas estão por toda a parte, mesmo que você não as note (até porquê elas são invisíveis).


Flagra exclusivo de uma pessoa invisível

O invisível é o João, o José, o Carlos, o Mário (que mario?). O invisível não se destaca. Ele não tem nenhuma característica peculiar. Não é nem muito feliz, nem muito triste, também. O invisível não é um cara engraçado, mas não chega a ser mau-humorado. Ele não é brilhante, nem tampouco chega a ser um cara burro. O invisível não tem nenhum amigo mais  próximo - ele é amigo de todos, mas naquele nível superficial da ‘coleguice’. No máximo, se aproxima mais de outros invisíveis. Eles se atraem.

O invisível não gosta de música e, por isso, gosta de todas elas. O invisível não se veste mal… mas também não se veste bem, sabe? O perfume dele não chega a incomodar, mas não te atrai. Ele não fala muito, mas quando fala, não se aprofunda. Fica ali, passeando pelo Faustão, pelo RBD, pela Mulher Melancia e pelo jogo de domingo, pelas piadinhas prontas e já batidas. O invisível não é um cara mal-educado. Mas também não é exatamente simpático.

Uma pessoa invisível não muda sua vida, nem pro bem e nem pro mal. A existência e a inexistência dela, do ponto de vista social, são absolutamente idênticas.

Alguns podem argumentar que o caminho do meio é sempre sábio. Mas eu devo discordar em casos… invisíveis. Se tem algo nessa vida que eu não quero é passar despercebida. E se tem algo que não posso entender é que alguém busque essa tão indesejável neutralidade em todos os campos. E se acomode nela.

É por isso que eu publiquei esse ‘manifesto’. Diga NÃO à invisibilidade. Vamos nos destacar. Vamos ser expressivos e intensos. Se é pra fazer bem, faça muito bem. Se é pra ser sacana, seja muito sacana. Rejeite o ‘mais ou menos’, o equilíbrio, o ‘tons de cinza’ quanto de trata de lidar com outras pessoas. Garanta que as pessoas vão se lembrar de você - ou por ser muito mala, ou por ter um cheiro muito estranho ou por ter uma mochila legal. Mas não seja só mais um.

*Existe um outro tipo de pessoa invisível. São os invisíveis à sociedade. Mas como não estou na vibe da crítica social, falo delas numa outra vez.

August 13th, 2008 | 6 Comments

A pergunta errada para a pessoa certa

O ano era 2001. Eu, uma jovem adolescente em busca de novos horizontes, resolvo num sábado à tarde tomar um ônibus até o centro de SP e visitar a catedral dos roqueiros em São Paulo, a Galeria do Rock.

Foto: Claudio Rocha

Essa é a galeria do rock

Naquela época, não havia Google Maps e eu não tinha amigos que pudessem me ensinar. Mas me informei e descobri que o ônibus que me levaria ao centro de SP passava numa avenida que ficava perto da minha rua, uma famosa pela enorme oferta de, digamos, favores sexuais pagos provenientes de mulheres (porque a outra avenida, de baixo, oferece opções mais, assim, masculinas.)

Me sentei no ponto de ônibus e eis que chega uma tia. Ela tava vestida de uma maneira estranhamente pseudo-provocante, mas eu nem liguei pra isso e resolvi perguntar se o ônibus que eu estava esperando realmente ia pra onde eu queria ir.

Nas fotos com Creative Commons do Flickr (clique na foto para visualizar os créditos), tive sorte de achar essa. Para ajudar na composição da imagem mental, o tio da direita é bem parecido com a minha anfitriã da ocasião. Sem exageros.

Ela foi bem simpática e me explicou direitinho qual eu deveria pegar e onde eu deveria descer.

Eu sou uma pessoa simpática, sabe. Não do tipo que puxa papo com desconhecidos, mas do tipo que dá corda para desconhecidos que puxam papo. Não contente em me dar informações sobre o itinerário, minha bus-stop anfitriã resolveu puxar assunto e eu correspondi, alegre por ter um passatempo além do discman que me acompanhava.

- Aonde você vai ali no centro?

- Na Galeria do Rock. Sabe?

- Uhm.

- E você?

- Ehr, eu… eu trabalho aqui.

FAIL.

Cara, eu perguntei aonde a mulher tava indo. Acontece que ela não tava indo pra lugar nenhum. Era tipo umas… sei lá, 11h30 da manhã de um sábado. Segundo as minhas concepções para o horário adequado de pessoas se prostituindo na rua, 11h30 da manhã não era mais parte do expediente, sabe? Pra mim, era igual na TV: sexo só depois das 23h, cara. Só na madrugada. Mas eu me enganei. E eu descobri o engano da pior maneira possível.

Por sorte, o ônibus chegou logo em seguida, eu me despedi alegremente e fingi que minha ingenuidade era algo de que deveríamos rir todos juntos. Moral da história: nunca, nunca pergunte a uma prostituta parada num ponto de ônibus qual ônibus ela vai pegar ou para onde ela vai, cara. Porque eu dei sorte: ela podia ter sido sincera comigo e respondido que ia para a casa do ca*****.

August 12th, 2008 | 6 Comments

A arte milenar de ofender pessoas por bilhetes em pára-brisas

Quinta-feira foi um dia meio louco. No ônibus, a cobradora era uma mulher bizarra, que pulava e dançava ao som de nenhuma música e flertava aos berros com moços na rua. A estação estava cheia demais pra uma quinta-feira, muita gente com bagagens enormes. No trem, dois tiozinhos pedreiros sentados a quatro metros de distância um do outro insistiam em manter um papo animado elevando suas vozes em uns 30 decibéis.

Um outro rapaz tinha o logo da Audi tatuado no ombro (e quando eu fui tirar foto ele vestiu a blusa, droga!), no exemplo mais estúpido de tatuagem que eu pude testemunhar desde o garoto que tatuou o próprio nome no braço em português mesmo (acho que pra não esquecer ou pra se achassem ele bêbado por aí, né). E quando eu sai de casa, me deparei na minha própria rua com este belíssimo exemplo de civilidade e alternativa de comunicação urbana preso no pára-brisas de um Uno (clique para ampliar):

Street-owned, motherfucker.

August 8th, 2008 | 9 Comments

De volta às aulas estúpidas

O problema dessas redações ‘minhas férias’ de retorno às aulas no meio do ano é que elas sempre pressupunham que você fosse abastado, que seus pais fossem do tipo que podiam tirar férias em julho e que a família, contente e unida, viajaria nesse período, proporcionando à criança experiências incríveis que ela poderia relatar com desenvoltura em agosto.

Meus pais são separados desde que eu me lembro, então nada de viagens de família à là filme da sessão da tarde. Também sempre trabalharam muito, então nada de férias em julho. Quando muito, viajava com a minha vó no meio do ano, mas isso era incomum - normalmente, com a minha vó, viajávamos nas férias de fim de ano mesmo.

Por causa disso, sempre que eu precisava escrever uma redação com o tema ‘Minhas Férias’, eu floreava a respeito do meu mês cheio de ação, no qual tinha assistido Vale a Pena Ver de Novo (e comprovado que não, não valia) e brincado com as minhas duas amigas da rua na época. Ou então eu enrolava, focando a redação no retorno às aulas, e não nas férias em si, e aproveitava pra puxar o saco da tia dizendo que estava ansiosa pra aprender mais.

Eu sempre soube bajular as pessoas certas.

De qualquer forma, é assim que me sinto (digo, fazendo redação de ‘minha férias’, e não bajulando as pessoas certas. Não que você não seja a pessoa certa para bajular… ok) falando aqui do meu retorno às aulas. A turma de VI semestre de Jornalismo da Universidade Metodista (manhã) está de volta com muito mais confusão e aventuras, agora com novas disciplinas.

Uma delas se chama Comunicação Organizacional. São duas aulas por semana, ou seja, 14 horas por mês, ou 84 horas por semestre aprendendo como fazer eventos (e eu que pensava que isso era tarefa pra RP / Marketing. Ingênua).

Ok, fica claro que a Metodista incluiu essa disciplina na nossa grade para atender a uma crescente demanda por jornalistas em comunicação interna e em marketing. Também fica claro que essa demanda cresceu porque jornalista pode fazer tudo igual ou melhor os marketeiros / RPs e ganha menos por isso. Mas o que não fica claro pra mim é porquê eu sou obrigada a fazer essa matéria.

Sei que é importante saber um pouco de tudo. Esse conhecimento já me foi cobrado em algumas entrevistas de emprego e, profissionalmente mesmo, eu nunca sei quando vou precisar saber coisas dessa área. Mas é que, em ‘Comunicação Organizacional’, o conhecimento que eu tô adquirindo é outro. Explico.

A professora é super divertida! Ela conhece muitas histórias engraçadas envolvendo eventos.

E a aula é basicamente baseada nesse conhecimento sobre situações engraçadas. Ela conta essas super histórias, e vira um número de stand-up com texto sobre eventos de todos os tipos e as situações inusitadas geradas por eles. E tem a história dos russos que morreram afogados em Salvador, a da modelo que não conseguia dormir e precisava dois baseados pra relaxar, a do estagiário que deu o paletó pro presidente da empresa segurar… adorei.

Tomara que no fim do curso eu esteja super boa em montar textos de comédia stand-up. Quem sabe eu não me apresento com o Nigel um dia desses?

Outra coisa que eu não entendo nesses projetos acadêmicos de comunicação/marketing/PP são aquelas simulações de lançamento de produtos. O professor sempre te dá um produto estúpido, o mais improvável, e quer que você seja o grande mestre da criatividade do universo e crie uma super campanha, um evento bombante e todo o resto.

Vou tomar como exemplo o meu produto, uma urna funerária. CARA! Quando, na vida real, uma empresa de urnas funerárias irá promover um evento para lançar esse tipo produto? Isso não existe. E divulgação? Qual é, não existe o que inventar nisso, não há onde ser criativo. As opções são restritas: provavelmente catálogos de funerárias e coisas assim.

A mulher quer o quê? Que eu insira meu anúncio de urna funerária nas páginas centrais da Veja? Que eu encontre uma publicação específica para o público da urna e (ou seja, TODO MUNDO QUE MORRE?) desenvolva um anúncio LEGAL sobre uma urna funerária? Que tipo de anúncio é adequado a uma urna funerária? O garoto propaganda deveria ser o Zé-do-Caixão (HÁ!)?

Foto: André Sigwalt/Divulgação


Urnas FUNerárias - você nunca imaginou que morrer podia ser tão divertido!

A única escapatória não-tragicômica seria vender as urnas como belíssimos objetos ornamentais naqueles programas de leilões bizarros que passam em canais esquisitos depois da meia-noite (aqueles que vendem anéis e quadros). Afinal, pra comprar uma urna funerária ornamental pela tevê, só sendo mesmo alguém esquisito o suficiente pra assistir a esses canais depois da meia-noite.

Ou então colocar no Mercado Livre, né.

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Vou trabalhar este mês em um horário diferente e por uns 25 dias seguidos, sem folga. Vou cobrir as Olimpíadas. Não em Pequim, claro. Sou estagiária, fico em São Paulo mesmo. Mas é legal dizer que você vão poder conferir aqui, também, uma cobertura especial dos Jogos Olímpicos. Como vou estar por dentro de tudo, vou selecionar o mais bizarro dos Jogos de Pequim e trazer pra cá. Ah, esperem também um provável aumento (temporário) no intervalo de atualizações. Tentarei manter a peridiocidade diária, mas se estiver muito muito cansada, vou primar pela minha saúde.

August 7th, 2008 | 3 Comments

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